NOSSA MISSÃO: “Anunciar o Evangelho do Senhor Jesus à todos, transformando-os em soldados de Cristo, através de Sua Palavra.”

Versículo do Dia

Versículo do Dia Por Gospel+ - Biblia Online

terça-feira, 23 de maio de 2017

Os cristãos e o politicamente correto

O cristão não deve ser politicamente correto (PC). E o cristão não deve ser anti-politicamente correto (anti-PC). O cristão deve ser anti-anti-politicamente correto (anti-anti-PC).

A liberdade de expressão é um dos direitos mais fundamentais do ser humano, sem o qual os outros direitos se tornam impossíveis ou difíceis de se exercer. Sem a liberdade de expressão, não há como navegar pacificamente a extrema diversidade de experiências humanas; não há como desenvolver a boa governança; e não há como reconhecer e responder à verdade em todos os campos, inclusive o religioso. Este último ponto era reconhecido pelos grandes autores cristãos da Antiguidade (antes da guinada para a repressão que começou no final do século 4º). Por exemplo, o grande teólogo Gregório Nazianzeno disse: “Não considero boa prática coagir as pessoas em vez de persuadi-las. Tudo que é feito contra a própria vontade é como um rio represado por todos os lados”.

A liberdade de expressão é constantemente ameaçada pelo poder político e pelas tensões sociais. Estas têm aumentado sensivelmente num mundo que se globaliza aceleradamente. Sobretudo com a migração e com a internet, o mundo inteiro se torna o nosso vizinho, ou, em termos bíblicos, o nosso próximo. As redes sociais têm facilitado a divulgação de casos (verídicos ou não) de constrangimentos sociais sobre a livre expressão das ideias e dos sentimentos. Ao mesmo tempo, grupos sociais há muito tempo reprimidos ou negligenciados encontram maior espaço para se afirmarem. Para as tensões não transbordarem desastrosamente, incentiva-se o uso de uma linguagem mais ponderada e respeitosa, mais sensível ao dano que pode causar à autoimagem e aos direitos fundamentais dos outros, buscando evitar os retratos caricatos e a ofensa desnecessária. Afinal, o direito de ofender não significa o dever de ofender. Nem tudo que é legal, é moral.

É aqui que surgem as controvérsias sobre o politicamente correto. Não vamos entrar no debate se o politicamente correto, o PC, de fato existe. Se muitas pessoas acham que existe, essa percepção é importante. Quanto à oposição ao politicamente correto, o anti-PC, não há dúvida de que existe. É um fenômeno crescente, com consequências políticas cada vez mais evidentes.

De um lado, temos de reconhecer que ninguém se autointitula “politicamente correto”. Somente se acusa o outro de sê-lo. Por isso, alguns autores sugerem que o PC não existe; existe somente o anti-PC. De fato, o termo “politicamente correto” se popularizou (em inglês primeiro) por volta de 1990 não na boca dos seus supostos adeptos, mas, sim, na boca dos seus críticos. Ou seja, para alguns autores, o fenômeno PC praticamente nasceu com a campanha anti-PC. A pré-história (antes de 1990) do PC seria apenas como um discurso meio jocoso contra o dogmatismo excessivo ou contra a autojustificação farisaica.
Por outro lado, o anti-PC não é construído do nada. Pode ser que o PC seja um “homem de palha”, um “espantalho”, um recurso argumentativo que cria um opositor caricato e absurdo para facilitar a vitória no debate. Mas espantalhos são criados em cima de alguma tendência real, embora caricaturando-a, exagerando-a. O anti-PC não deixa de apontar para uma versão moderna do farisaísmo.

Mesmo assim, o discurso anti-PC tipicamente reúne algumas características. Primeiro, o exagero e a generalização: parte de anedotas para construir um fenômeno generalizado. Depois, a acusação. O discurso anti-PC acusa o outro de agir com má-fé, de ter motivos inconfessáveis, de esconder a verdade para avançar uma agenda. Acusar alguém de estar sendo “politicamente correto” é dizer não somente que está errado, mas também que é mal-intencionado; ou, então, que é inocente útil nas mãos daqueles que querem tomar conta de instituições-chave como a política, a academia e a mídia.

Outra característica é a autovitimização. Quem maneja o discurso anti-PC frequentemente se retrata como oprimido, ora como vítima indefesa de forças ocultas, ora como herói da resistência a essas mesmas forças.

Finalmente, o discurso anti-PC é a antipolítica, pois busca silenciar o debate sério das ideias, preferindo a desqualificação do adversário.

Donald Trump manejou com maestria essas características do discurso anti-PC. “Eles [Obama e Hillary Clinton] colocaram o politicamente correto acima do bom senso, acima da segurança da população, acima de tudo. Mas eu me recuso a ser politicamente correto”, disse Trump após a chacina numa boate na Flórida. Repetidamente, Trump culpou o “politicamente correto” por uma série de problemas sociais e usou o discurso anti-PC para justificar seus comentários chocantes sobre mulheres, imigrantes, latinos, muçulmanos... Apresentava-se ao mesmo tempo como perseguido e como herói. A sua grosseria e insensibilidade seriam, na realidade, a coragem heroica de um perseguido, e não a baixaria de um demagogo.

Se o PC, na medida que existe, é uma manifestação contemporânea do farisaísmo contra o qual se insurgiu Jesus, a realidade é que hoje em dia há muito mais ativismo anti-PC. Quando se trata de cristãos, o sentimento anti-PC muitas vezes reflete a tensão permanente entre pecar com a língua e falar a verdade em amor.

Mas, infelizmente, o discurso anti-PC, mesmo quando fala a verdade, não transmite exatamente o amor. E muitas vezes apenas externaliza sentimentos vis, os quais, em vez de serem expressos em público, deveriam ser confessados em oração, pedindo a cura de Deus.

No fundo, muitas normas que poderiam ser chamadas (xingadas) de politicamente corretas existem por causa de uma realidade humana que os cristãos, teoricamente, reconhecem diariamente: a existência e ubiquidade do pecado; neste caso, o pecado de deixar aflorar certas opiniões e atitudes que o cristão deveria ter vergonha de sentir. Por outro lado, quem crê que a total falta de controle sobre a expressão dos sentimentos equivale à “honestidade” e deve ser encorajada, doa a quem doer, não acredita (supõe-se) na realidade do pecado.

Nada mais distante da visão bíblica do uso responsável da língua, sem falar da visão bíblica da igualdade humana e da universalidade do conceito de “próximo” (todo o mundo) e da “regra de ouro” (“faça aos outros o que você quer que façam a você” [Mt 7.12]). E sem falar do comportamento de Jesus. Como em tantas outras dimensões, Jesus inverteu as expectativas dos religiosos de sua época, mas não pelo destempero verbal contra os indefesos e vulneráveis e marginalizados, como os “politicamente incorretos” de hoje. O destempero verbal de Jesus é proporcional ao poder real (político, ou religioso, ou social) exercido pelo “alvo” da sua crítica: o governante é “raposa”, os líderes religiosos são “sepulcros caiados”. Para Jesus, quanto mais vulnerável o grupo ou pessoa, maior a nossa responsabilidade de evitar ofendê-lo; não na sua sensibilidade exagerada, mas na sua condição de imagem de Deus (“ao menor destes...” [Mt 25.40]).

Os cristãos devem precaver-se da atração pelo destempero e pelas opiniões agressivas de algumas correntes políticas ao redor do mundo hoje. O espírito de Jesus (tanto no seu uso da linguagem como na sua visão do “reino invertido”) pouco ou nada tem a ver com essa atração. Não sejamos como as pessoas que se fascinam com o político (ou melhor, o político que se apresenta como o antipolítico) que fala grosso. Lembremos que, segundo o apóstolo, quem aprova um ato vil é até pior do que quem o pratica (Rm 1.32).

Nosso chamado como cristãos não é ser PC (que, na melhor das hipóteses, representa apenas o atual estágio do preconceito), nem anti-PC, mas buscar entender cada vez mais o alcance estupendo da revelação de Deus em Cristo e as suas implicações para a nossa visão do ser humano. Uma pequena ilustração disso: há alguns anos, um de nós fez uma apresentação sobre pentecostalismo e migração internacional num simpósio acadêmico. Assim que terminou, a primeira reação da plateia foi de um estudioso holandês, um dos mais respeitados no campo da sociologia da religião, que disse com desdém: “Onde quer que haja pentecostais, há problemas”. Não houve reação do grupo. Mas podemos imaginar qual teria sido a reação se ele tivesse falado não de “pentecostais”, mas de “judeus” ou de “muçulmanos”. Teria havido, sem dúvida, uma reclamação ou, no mínimo, um suspiro audível de desaprovação. Mas ainda é aceitável dizer certas coisas sobre pentecostais que não são mais aceitáveis dizer (graças a Deus) a respeito de muçulmanos ou judeus. E isso acontece apesar do fato de que a grande maioria dos pentecostais ao redor do mundo são relativamente pobres, não brancos e mulheres, categorias que o “politicamente correto” deveria proteger.

Esse incidente ilustra a ideia do “estágio atual do preconceito”. E a reação cristã, nos parece, não é de querer que seja, mais uma vez, legítimo falar desrespeitosamente de pobres, não brancos, mulheres, judeus e muçulmanos, mas que o mesmo respeito seja demonstrado aos pentecostais (seja qual for seu gênero, cor ou condição econômica), como também a todos os seres humanos, portadores sem exceção da imagem divina.

Nota:
Texto publicado originalmente na seção "Ética" da revista Ultimato, edição 365.

• Paul Freston
, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

• Raphael Freston é mestrando em sociologia na Universidade de São Paulo.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Flertando com o adversário: os evangélicos e a teologia liberal

Um traço intrigante de alguns movimentos religiosos é o fato de experimentarem transformações tão radicais ao longo de sua história a ponto de se distanciarem por completo de suas convicções iniciais. Um bom exemplo disso foi o que ocorreu com o puritanismo norte-americano. Originalmente comprometido com uma fé profundamente bíblica e uma espiritualidade fervorosa, algumas gerações mais tarde ele deu origem ao movimento unitário, fruto do racionalismo iluminista. Diversos observadores entendem que esse mesmo fenômeno está ocorrendo nos dias atuais com o movimento evangélico ou evangelicalismo, não só nos Estados Unidos, mas também no Brasil. Consciente ou inconscientemente, segmentos evangélicos anteriormente conservadores, apegados à fé cristã histórica, estão aos poucos abraçando pressupostos e atitudes característicos do liberalismo teológico.

Antecedentes históricos
Até o século 18, o protestantismo atribuiu grande importância à inspiração divina, autoridade e suficiência das Escrituras, bem como a outras convicções decorrentes desses fundamentos, preservando as ênfases dos reformadores do século 16. Os princípios de “sola Scriptura” (somente a Escritura), “tota Scriptura” (toda a Escritura) e o direito de livre exame revitalizaram a igreja e transformaram sociedades inteiras. Todavia, com o advento do Iluminismo, surgiu a tendência de embasar a religiosidade e a fé em outras autoridades que não a Bíblia e os credos cristãos históricos. Inicialmente, foi entronizada a razão, concluindo-se que só podia ser aceito como verdade religiosa o que pudesse ser demonstrado pelo intelecto humano. É o que se denominou religião natural ou racional, cuja expressão mais conhecida foi o deísmo inglês.

Posteriormente, o filósofo alemão Immanuel Kant mostrou os limites da razão, relegando a religião ao âmbito exclusivo da moralidade (“razão prática”). Embora as realidades transcendentes fossem consideradas inacessíveis ao conhecimento humano, a crença em Deus foi mantida como um suporte para o viver ético. No século 19, Friedrich Scheiermacher, considerado o “pai da teologia liberal”, deu um passo adiante ao definir a essência da religião como o senso de dependência absoluta da realidade última. Agora, o critério da verdade passou a ser o sentimento, a experiência subjetiva. Ele também relativizou a importância do cristianismo, já que esse sentimento de dependência podia existir em qualquer religião. Outro grande forjador da teologia liberal, Albrecht Ritschl, apesar de ter atribuído maior valor à Escritura e à fé cristã, manteve a ênfase ética em detrimento das preocupações doutrinárias.

A segunda metade do século 19 assistiu ao pleno florescimento do liberalismo teológico, caracterizado pelo esforço de harmonizar o cristianismo com o pensamento, a arte e a ciência contemporânea. O campo em que isso ficou mais evidente foi o estudo da Escritura. A Bíblia passou a ser encarada desde uma perspectiva naturalista, sendo negadas a sua inspiração e autoridade divina. Ela deixou de ser vista como uma fonte de verdades eternas, sendo apenas o registro culturalmente condicionado das experiências religiosas do povo de Israel e dos primeiros cristãos. Jesus foi considerado simplesmente um ser humano com profunda percepção das realidades espirituais, um grande mestre moral e religioso. Esse personagem histórico nada tinha a ver com o ente divino-humano, operador de milagres e ressurreto dentre os mortos retratado nos Evangelhos, que teria sido imaginado pela igreja primitiva (“o Cristo da fé”).

Surge o evangelicalismo
No início do século 20, protestantes conservadores nos Estados Unidos ficaram alarmados com o avanço do liberalismo ou modernismo teológico. Como já havia ocorrido na Europa, a teologia liberal estava rapidamente ocupando espaços nas igrejas e nos seminários norte-americanos. Ocorreu nesse contexto a célebre controvérsia “modernista-fundamentalista”, na qual os conservadores afirmaram enfaticamente a necessidade de preservar as convicções cristãs históricas sobre as Escrituras e a pessoa de Cristo, que eles criam estar sendo solapadas pelas novas ênfases teológicas. John Gresham Machen, professor de Novo Testamento no Seminário de Princeton e o representante mais culto do movimento conservador, escreveu o livro “Cristianismo e Liberalismo” (1923), argumentando que os termos desse título se referiam a duas religiões inteiramente distintas.

Por defenderem doutrinas consideradas fundamentais para a fé cristã, os conservadores ficaram conhecidos como fundamentalistas. Infelizmente, alguns deles também começaram a insistir numa questão não essencial, o dispensacionalismo, e a manifestar atitudes intolerantes e cismáticas em relação aos que não concordavam com eles. O movimento então se dividiu, ficando de um lado os radicais, sob a liderança de Carl McIntire, e do outro, os evangélicos, mais moderados, liderados por homens como Harold Ockenga, Carl F. Henry e Billy Graham. Houve também uma versão européia do movimento, tendo à frente John Stott, J. I. Packer, Martyn Lloyd-Jones e Francis Schaeffer, entre outros.

O liberalismo clássico, caracterizado por seu imenso otimismo quanto à bondade inata do ser humano e ao progresso inexorável da humanidade, sofreu fortes abalos com a Primeira Guerra Mundial e a neo-ortodoxia de Karl Barth, mas conseguiu sobreviver. Embora muitos liberais fossem homens cultos e íntegros, sua teologia contribuiu para que boa parte das igrejas da Europa e da América do Norte perdesse sua identidade doutrinária, vitalidade espiritual e zelo evangelístico. Durante algumas décadas, os evangélicos ou evangelicais procuraram preservar esses valores por meio de suas igrejas, instituições e publicações. Todavia, a partir dos anos 80, determinados segmentos começaram a tomar rumos preocupantes.

O dilema atual
Autores contemporâneos como David Wells (“Coragem de Ser Protestante”) e Michael Horton (“Cristianismo sem Cristo”) têm soado um brado de alerta quanto a algumas transformações recentes do evangelicalismo norte-americano. Dois movimentos em especial geram apreensões: as igrejas norteadas pelo marketing religioso e as chamadas igrejas emergentes. Elas têm em comum uma forte ênfase antropocêntrica que torna os desejos, as necessidades e as experiências humanas o critério dominante da vida espiritual, e, em consequência disso, uma preocupação cada vez menor com doutrinas, com convicções claras e firmes.

Como sempre acontece, muitas igrejas evangélicas brasileiras têm sentido o impacto dessas influências procedentes do hemisfério norte. O evangelho da prosperidade e o pragmatismo religioso têm levado a uma preocupação com o sucesso, com números, em detrimento da integridade bíblica e teológica. Em muitos púlpitos já não se ouvem as doutrinas da graça, os grandes temas da Reforma do Século 16, e sim mensagens condescendentes de autoajuda psicológica. Afinal, é muito mais interessante ouvir um sermão sobre como ser feliz e bem-sucedido do que sobre o pecado, a justiça de Deus ou a santificação.

A falta de interesse por questões doutrinárias tem levado um bom número de igrejas e líderes a gradativamente abrirem espaços para a penetração de influências liberais. Há vários anos, denominações históricas outrora conservadoras vêm permitindo que instituições vitais, como os seus seminários, sejam controladas por corpos docentes de orientação progressista. Recentemente, até mesmo grupos pentecostais, na ânsia de encontrarem professores pós-graduados para seus cursos de teologia reconhecidos pelo governo e para programas de validação de diplomas, têm feito contratações levando em conta apenas a titulação acadêmica e não as preferências teológicas dos docentes. Em consequência, grande número de pastores e leigos têm ficado expostos a conceitos doutrinários muito diferentes daqueles adotados oficialmente por suas igrejas.

Conclusão
A mentalidade pós-moderna se caracteriza pelo pluralismo, o relativismo e o abandono de valores absolutos. No desejo de ser relevante, atual e sintonizada com o mundo, a igreja corre o risco de fazer concessões excessivas à sociedade e à cultura, comprometendo a integridade do evangelho da graça. Nesse contexto, a teologia é um dos recursos mais essenciais para a vitalidade do povo de Deus. Se ela for desprezada, a vida devocional, o culto comunitário, o senso de missão e o testemunho da fé perdem sua solidez e coerência. Por sua vez, sem olhar atentamente para a Escritura, a história da igreja e as contribuições do passado, a reflexão teológica se torna refém das opiniões subjetivas, dos modismos flutuantes e dos ditames culturais de cada geração. Que as igrejas evangélicas do Brasil possam retornar às suas raízes, à herança dos reformadores, aplicando-a com fidelidade, sabedoria e sensibilidade aos complexos problemas e carências dos dias atuais.


• Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e “Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil”.
asdm@mackenzie.com.br

domingo, 21 de maio de 2017

Pregando o evangelho para si mesmo

Há grande segurança na salvação que vem do Senhor. Deus nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo, e sua decisão permanece. O Espírito Santo nos fez nascer de novo, e não há meios pelos quais possamos destruir a vida que ele nos deu. Todo crente foi crucificado com Cristo, e em nenhuma parte da Escritura vemos uma maneira pela qual possamos não ser crucificados. Todo aquele que crê em Jesus Cristo é justificado, e nenhuma obra do homem ou de Satanás pode anular o veredito de Deus. Jesus exerce cuidado soberano sobre todo o seu povo. Aqueles que estão em suas mãos não podem ser tirados dele. Ainda assim, apesar da segurança e permanência de nossa salvação diante de Deus por meio de Jesus Cristo, podemos nos encontrar em sofrimento quando nos afastamos da esperança do evangelho.
E nos desviamos. Enquanto o desvio pode vir na forma de ceder à imoralidade, mais frequentemente se disfarça como uma espécie de Cristianismo. Para muitos, a vida cristã é guiada pela precisão doutrinária. Podemos devidamente valorizar nossa herança confessional e ver a importância de uma teologia robusta, mas esse pode se tornar o objetivo pelo qual nos esforçamos, enquanto perdemos a conexão de toda a teologia com o evangelho. O conhecimento muitas vezes “vangloria-se” e o orgulho resultante nos leva à confiança confessional mais que à confiança evangélica. Alguns cristãos baseiam a sua vida espiritual em emoções — os movimentos íntimos do coração que muitas vezes estão conectados com as profundas verdades de Deus. Mas enquanto as verdades de Deus nunca mudam, a nossa experiência destas verdades muda. E quando os sentimentos não estão presentes, nossa fé acaba em crise. Ao encontrar confiança em nossas emoções, nos desviamos do que deveria ser a nossa única esperança na vida e na morte. Muitos de nós perdemos de vista o evangelho enquanto nos concentramos em nossas próprias obras e em quão bem estamos indo espiritualmente. Ao nos medirmos por padrões autoimpostos, acreditamos ser fortes ou fracos, mas em cada caso a correção é encontrada em fazer o nosso melhor, em vez de na obra de Cristo.
Fundamentalmente, o evangelho é esquecido quando já não funciona como nossa esperança e confiança diante de Deus, ou quando se torna não essencial para o viver prático e diário da vida cristã. O evangelho que muitas vezes esquecemos deve ser recuperado e retido para a segurança das nossas almas, e isso é feito através da pregação do evangelho para nós mesmos.
Pregar o evangelho para nós mesmos é chamar a nós mesmos para nos voltarmos a Jesus por perdão, purificação, fortalecimento e propósito. É responder as dúvidas e medos com as promessas de Deus. Meus pecados me condenam? Jesus cobriu-os todos em seu sangue. Minhas obras são insuficientes? A justiça de Jesus é considerada como minha. O mundo, o diabo e minha própria carne estão conspirando contra mim? Nem mesmo um cabelo pode cair da minha cabeça se não for a vontade do meu Pai que está nos céus, e ele prometeu cuidar de mim e me guardar para sempre. Posso realmente negar a mim mesmo, carregar minha cruz e seguir a Jesus? Sim, porque Deus opera em mim o querer e o realizar segundo o seu próprio prazer. É a isso que se assemelha pregar para nós mesmos.
Essa pregação privada e pessoal só pode acontecer quando a Palavra de Deus é conhecida e crida; quando a lei de Deus revela nosso pecado e desamparo, e sua graça cobre esse pecado e supera as nossas fraquezas. Pregar o evangelho para nós mesmos não é simplesmente o ato de estudar a Bíblia (embora possamos pregar para nós mesmos nesse ato), mas é nos chamar ativamente a crer nas promessas de Deus em Jesus, seu Filho.
Pregamos para nós mesmos através das disciplinas da oração e meditação nas Escrituras. Na oração, buscamos a Deus para satisfazer graciosamente as nossas necessidades, e no ato em si exercemos fé. Em sua exposição da Oração do Senhor, Thomas Manton disse: “A oração… é uma pregação para nós mesmos na audiência de Deus. Nós falamos a Deus para nos confortar, não para a sua informação, mas para a nossa edificação”. As promessas do evangelho na Palavra de Deus nos guiam na oração, levando-nos à segurança da obra e sacrifício de Jesus. Pela meditação, lembramos o evangelho; pela oração, reivindicamos o evangelho como a nossa grande esperança.
A maioria de nós precisa redescobrir o evangelho. E tal redescoberta é necessária diariamente, porque nossa necessidade está sempre presente e nossos corações são propensos a se desviar. Mas a recuperação do evangelho só acontece quando nós sentimos o fardo dos nossos pecados, a fraqueza da nossa carne e a fragilidade da nossa fé. Isso significa que somente aqueles que sabem que são pecadores indignos e que a Palavra de Deus é verdadeira descobrirão que o evangelho não é apenas uma boa notícia, mas uma boa notícia para as suas próprias almas.

 Joe Thorn é o pastor principal da Redemer Fellowship em Saint Charles, Illinois.

sábado, 20 de maio de 2017

Igrejas, comunidades terapêuticas

Pessoas que se detêm diante do sofrimento de outros, param nas ruas, ouvem queixas, socorrem vizinhos, visitam hospitais e presídios. Fazem tudo anonimamente, seguindo o exemplo do samaritano da parábola de Jesus (Lc 10.25-37).
Grupos cristãos que se mobilizam para socorrer necessitados, distribuindo alimentos e remédios, revezando-se ao lado de doentes, acompanhando solitários. Eles se inspiram na advertência de Jesus: “[...] sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25.40).
Comunidades singelas que se reúnem nas periferias, acolhendo os aflitos, juntando-se em oração, mobilizando recursos, abrindo espaços de socialização e autenticação de identidades. O desafio é se manterem fiéis ao ensino do Mestre: “[...] quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mt 20.26).
Igrejas mais organizadas, inseridas na vida urbana, que se empenham em superar tendências individualistas e preconceituosas, formando grupos solidários e comprometidos, juntos nas alegrias e nas tristezas da vida. São expressões de reconhecimento daqueles que experimentam o amor de Deus: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19).
Todos estes exemplos sinalizam a presença da Igreja do Senhor Jesus Cristo. Em meio ao mundo impregnado pelas inúmeras expressões do pecado individual e coletivo, apontam que é possível ser diferente. Deus quer que façamos diferença, pois “o próprio Filho do homem não veio pra ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45).
Ao longo dos tempos, os cristãos têm sido despertados para a responsabilidade de vivenciar o evangelho em sua integralidade. A mesma mensagem de fé e esperança revelada na Bíblia ganha, em diferentes contextos, linguagem que se articula com o momento histórico. Práticas que porventura se encontram esquecidas são então atualizadas e revelam novas expressões do amor cristão.
Vejamos aqui um exemplo desta aproximação, considerando um conceito que vem sendo difundido a partir da segunda metade do século 20. Desde então, tornou-se comum nos meios assistenciais falar em comunidade terapêutica, na busca de resgatar princípios e implementar práticas efetivas na promoção da saúde.
Partiu-se da observação de que diversas instituições da sociedade não cumprem o seu papel em benefício das pessoas. Cientistas sociais foram pioneiros nessa crítica, tendo-se como referência o trabalho de Erving Goffman, caracterizando o que chamou de “instituições totais” – aquelas que se propõem a abrigar pessoas em regime fechado, prometendo suprir todas as suas necessidades. A constatação é que, em tais ambientes, a despeito de toda boa vontade propalada, tende-se ao autoritarismo, sendo imposta uma hierarquia rígida, que leva à humilhação e à desumanização dos assistidos.1 Nesse contexto, as instituições que acolhem doentes mentais mostraram-se exemplos típicos de tal perversão de propósitos.
No Brasil, os grandes hospitais psiquiátricos surgiram ainda no século 19 (no Rio de Janeiro) e no começo do século 20 (em Franco da Rocha, Barbacena, Niterói, Recife, Fortaleza, entre outras cidades). Em geral, eles detinham grandes extensões de terras e foram criados com a proposta de recuperação por meio das atividades rurais. Aos poucos, porém, tornaram-se grandes depósitos humanos, servindo para propósitos de exclusão social. Mesmo clínicas menores, de origem mais recente, incorreram nas mazelas anteriores, pois obedeceram à mesma lógica autoritária. Devemos reconhecer que tais instituições ainda são encontradas entre nós.
Surgiram então propostas de mudança, com a disposição de transformar tais instituições em comunidades que assumissem características realmente terapêuticas. O psiquiatra britânico Maxwell Jones destacou-se nessa direção, impulsionando um movimento que ganhou repercussão mundial.2 Para ele, algumas características precisam ser cultivadas nas instituições de saúde para que seus propósitos maiores sejam alcançados, tais como desenvolver um clima de convivência espontânea, em que predominem o respeito, a aceitação e a compreensão mútuos; cultivar um pacto de compromisso entre todos os envolvidos, em que direitos e deveres sejam respeitados; praticar uma liderança horizontal, sem rigidez hierárquica, exercida de forma democrática, em rodízio, que possa emergir segundo a competência, a ocasião e a necessidade; exercer o papel terapêutico como atribuição de todos os membros, mesmo daqueles com funções aparentemente simples, e dos próprios assistidos, em interação mútua.
Não tardou que se vislumbrasse certo paralelismo entre as propostas do movimento que crescia no campo da saúde mental e aquelas provenientes do evangelho. Além de todos os estímulos encontrados ao longo da narrativa bíblica, sobretudo nos ensinos e na própria vida do Senhor Jesus, o livro de Atos dos Apóstolos traz descrições encorajadoras sobre o dinamismo inerente às comunidades cristãs. 
Em evento promovido pela Fraternidade Teológica Latino-Americana, realizado em Itaici, SP, em 1977, surgiu a proposta de articular o conceito de comunidade terapêutica com a dinâmica das nossas igrejas. Coube ao doutor Daniel Schipani, teólogo e psicólogo argentino, apresentar o documento definitivo: Iglesia, comunidad sanadora! [Igreja, comunidade curadora!]. Os pontos chaves de sua tese são:
• A reconciliação que experimentamos por meio da obra salvadora de Jesus Cristo é também uma ação curadora de Deus em cada um de nós;
• Tal reconciliação tem alcance amplo, assumindo a forma de terapia da pessoa integral;
• Jesus Cristo pode ser tomado como o terapeuta por excelência;
• Cada comunidade cristã, sendo portadora da mensagem transformadora do evangelho, deve assumir seu amplo papel como agente desta terapia radical.
Na mesma direção surgiu o interessante livro “Curar Também é Tarefa da Igreja”, do pastor e médico psiquiatra, também argentino, Ricardo A. Zandrino.3 Ele destaca que a ação terapêutica das comunidades cristãs se expressa pela aceitação das pessoas, pela prática da confissão mútua, pelas manifestações de perdão, pelo exercício da oração intercessória, pela convivência grupal e pelo serviço cristão às pessoas e à sociedade, entre outras maneiras.
Está claro que tais recursos oferecidos pelas comunidades cristãs não excluem a busca pela ajuda de profissionais específicos e de instituições de saúde disponibilizados pela sociedade em geral.
Com esta inspiração, o Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos, fundado em 1976, assumiu a difusão da proposta de articular a prática das igrejas com o conceito de comunidade terapêutica. Tomamos como compromisso envolver-nos em participação e apoio às instituições cristãs, com a disposição de juntos encarnarmos a ampla proposta redentora de Jesus Cristo. Cremos que assim estamos sinalizando, ainda que de forma limitada, a promessa de vida plena que nos aponta para novos céus e nova terra.
Chamamos a atenção para o papel que os cristãos podem e devem exercer em face dos desafios de transformar a realidade da assistência em saúde mental. Vemos que isso se faz urgente, diante da disseminação do uso de substâncias psicoativas, especialmente entre os jovens da nossa sociedade. Sugerimos então alguns exemplos de contribuições que podemos oferecer:
• Rever preconceitos que excluem os doentes e seus familiares, abrindo espaço para acolhê-los e ajudá-los na convivência pessoal e grupal;
• Oferecer serviços de “acompanhamento terapêutico”, isto é, passar um período com os doentes em atividades de lazer, cultura, devoção etc.;
• Incentivar a criação e ampliação dos serviços, especialmente os extra-hospitalares. O espaço ocioso das igrejas e instituições religiosas pode ser muito bem usado para tal. A participação de conselheiros cristãos beneficiará os usuários dos serviços, bem como os próprios profissionais da saúde;
• Estimular famílias para que “adotem” pessoas para que, após anos de reclusão, possam ser reintegradas à vida em comunidade;
• Criar lares ou pensões “protegidas”, que ofereçam acolhimento temporário durante viagem ou alguma crise familiar, com a retaguarda de profissionais; • Participar dos conselhos de saúde, pois são eles que definem os planos de ação e o uso dos recursos no setor, recebendo fortes pressões de interesses e grupos. É necessária uma ação ordenada e coesa na direção do que realmente interessa à população.
Logo, vê-se que o esforço isolado de alguns não é suficiente. A força da coletividade, da organização grupal e da ação programada pode e deve ser mobilizada, garantindo resultados maiores. As igrejas cristãs dispõem, por certo, de recursos humanos e materiais para que tal propósito seja alcançado e, sobretudo, contam com inspiração e direção, quando firmadas na condução do Espírito de Deus.
Cabe, por fim, reafirmar que não se trata de implementar simples atos de caridade. Na verdade, a ponte da solidariedade é de mão dupla e os mais beneficiados costumam ser aqueles tidos como sãos e mais favorecidos. É sempre oportuna a frase atribuída a Abraham Lincoln, quando diante de alguém acometido por infortúnio aparentemente maior: “Ali, apenas pela graça de Deus, não estou eu”.
As comunidades cristãs só têm a ganhar quando se abrem em acolhimento ao doente, ao necessitado e ao diferente. Os desafios trazidos nos levam ao exercício dos diversos dons, à busca por recursos ainda latentes, à promoção de mudanças que beneficiam a todos. Afinal, as situações de aparente desgraça são, na verdade, oportunidades para a intervenção da graça de Deus. Ele pode nos usar para tal, fazendo-nos participantes das manifestações de sua misericórdia.
Referências bibliográficas
1. GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. Trad. Dante Moreira Leite. São Paulo: Perspectiva, 1974.
2. JONES, Maxwell. The therapeutic community; a new treatment method in psychiatry. Nova York: Basic Books, 1953.
3. ZANDRINO, Ricardo A. Curar também é tarefa da igreja. São Paulo: Nascente, 1986. 
• Uriel Heckert, médico psiquiatra, é mestre em filosofia e doutor em psiquiatria. É membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos e da 4ª Igreja Presbiteriana de Juiz de Fora.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Teu amor faz inimigos?

Vejo como é comum grande parte dos cristãos serem enganados com a ideia de que a característica principal que deve nos distinguir do mundo como cristãos, seja a “bondade” – Jesus disse que era nosso amor que devia indicar que de fato somos seus discípulos ( João 13.35 )  - mas muitos tem usado isso para nos enganar... tomamos este amor por significar uma docilidade simplória, plácida... mas o amor dito aqui não é fácil, arrumado, dócil... É um trabalho árduo que exige coragem. Amar nossos inimigos, implica ter inimigos.

Nos primeiros capítulos do livro de Josué, um contraste interessante é mostrado a nós. Depois que Moisés morreu, Deus é imperativo com Josué: “Seja forte e corajoso!” – E Josué faz o mesmo com o povo, as tribos, e lhes diz: “Sejam fortes e corajosos!” ( Js 1.6,7,9,18).

Eles vão enfrentar uma luta terrível, e ela está logo adiante deles, e devem estar preparados para a batalha a frente – será duro. Seus inimigos eram realmente inimigos ferozes, fortes e poderosos, com cidades fortificadas.

Mas uma coisa é notável. Quando os espiões são escondidos por Raabe, a prostituta de Jericó, ela insinua para eles que os inimigos do povo de Deus estão apavorados, que seus corações derreteram, e que a coragem dos homens de Jericó fugiu deles – Js 2.11.  Você vê isso? O povo de Deus, quando é obediente a Ele, deve ser um terror para seus inimigos.

É paradoxal. A igreja deve ser totalmente militante no avanço do Evangelho da Paz. Nossa espada é a Palavra de Deus, e é desamor não proclamar a Verdade ofensiva da Cruz e a realeza de Cristo sobre todas as nações e todos os homens.


Devemos ter em mente que Deus vai destruir seus inimigos, muitas vezes isso significará ( Graças a Deus ) transformá-los em Seus amigos. Mas devemos ser conhecidos pelo nosso amor, que realmente aterrorizará os inimigos de Deus e sua Igreja.  É o que a Verdade faz num mundo de mentiras.


Para muitos cristãos, pensar em ter inimigos é uma coisa ruim -  e então pensam que devemos fazer tratados de paz com nossos inimigos simplesmente abrindo mão da Verdade e da pureza da Palavra de Deus e abraçando o humanismo secular.


É a paz através de comprometer a verdade – mas isso não é paz e nem amor. Nesta era do Evangelho, Deus pretende destruir seus inimigos convertendo-os através do poder da Verdade da Sua Palavra.


Não se trata de termos “argumentos vencedores” – é uma vitória baseada na confiança e amor ao e do Evangelho, que invariavelmente realizará o que Deus pretende através de nós.


A Bíblia diz que “onde quer que Paulo fosse, havia tumultos” – Isso exatamente que grande parte dos cristãos não querem. Então redefinem o significado de amor e paz que deve nos caracterizar, comprometem o Evangelho e a Verdade – E ficam em “Paz” com o mundo.


“Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” Tiago 4:4


Precisamos amar e calçar o evangelho da paz como Paulo o fez: “onde ele foi houve tumultos...” Mas só esse é o amor que leva a Verdade em nome do Príncipe da Paz... para um mundo que ama as trevas.
 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A Metapsicologia Ateísta de Freud

Existem, pelo menos, três grandes teorias ateístas que têm moldado fortemente a cultura contemporânea em oposição à cosmovisão cristã: o marxismo, o darwinismo e o freudianismo. Já tratei da sangrenta e herética ideologia marxista aqui e também fiz pontuações sobre o cientificismo do evolucionismo (neo)darwinista aqui, cabe agora fazer algumas considerações sobre a psicanálise freudiana.

PRESSUPOSTOS DA PSICANÁLISE FREUDIANA

O freudianismo se sustenta sobre três pressupostos básicos[1]:


1. Ontologia materialista: Segundo a metapsicologia freudiana, a natureza do mental é material. Os estados mentais inconscientes são, em última instância, estados cerebrais.
2. Epistemologia naturalista: A psicanálise freudiana está alinhada com o naturalismo científico. O homem é concebido a partir de um ponto de vista antropológico naturalista como uma espécie biológica e a psicanálise é entendida como uma ciência natural.
3. Metodologia pessimista: A técnica utilizada pela psicanálise é a associação livre, na qual o sujeito articula livremente a fala e o analista fica em atenção flutuante atento, não à fala em si, mas as manifestações do inconsciente. O pessimismo terapêutico do freudianismo questiona a possibilidade da felicidade, pois há uma tendência natural no psiquismo (a pulsão de morte) para a autodestruição.

Ao assumir uma ontologia materialista e uma epistemologia naturalista, a psicanálise freudiana se coloca em contradição com a antropologia cristã, que concebe o homem como dotado de uma alma racional e imortal. O materialismo freudiano destrói o fundamento da dignidade humana ao conceber o homem como um mero amontoado de células. Além disso, por seu materialismo mecanicista, Freud compreende um determinismo psíquico segundo o qual as “escolhas” humanas em Freud são vistas como determinadas pela rede de conexões causais dos processos do inconsciente:

“Notarão desde logo que o psicanalista se distingue pela rigorosa fé no determinismo da vida mental. Para ele não existe nada insignificante, arbitrário ou casual nas manifestações psíquicas. Antevê um motivo suficiente em toda parte onde habitualmente ninguém pensa nisso; está até disposto a aceitar causas múltiplas para o mesmo efeito, enquanto nossa necessidade causal, que supomos inata, se satisfaz plenamente com uma única causa psíquica” [2]

Era de se esperar que dessa antropologia naturalista viesse um pessimismo terapêutico. A morte é o único destino que resta ao homem. Não há esperança de cura para as patologias psíquicas e os desejos do homem são insaciáveis. Com base na insaciabilidade desses desejos, Freud argumentava contra a existência de Deus dizendo que Ele era apenas uma projeção dos fortes desejos internos do coração humano. O indivíduo se sentiria impotente na idade adula criando uma figura paterna semelhante aquela que lhe protegeu na infância:

“A psicanálise dos seres humanos de per si, contudo, ensina-nos com insistência muito especial que o deus de cada um deles é formado à semelhança do pai, que a relação pessoal com Deus depende da relação com o pai em carne e osso e oscila e se modifica de acordo com essa relação e que, no fundo, Deus nada mais é que um pai glorificado.”[3]

O argumento de Freud poderia ser colocado assim: (1) Uma ilusão é uma projeção dos nossos desejos sem bases no real; (2) Deus é uma projeção dos nossos desejos sem bases no real; (3) Logo, Deus é uma ilusão. A verdade, por outro lado, é que a paternidade de Deus na Trindade é o arquétipo das paternidades humanas, não o contrário. [4] Freud comete uma falácia genética por querer invalidar a verdade de uma crença com base em sua possível origem.

Além disso, como o próprio Freud reconhece, a relação com o pai reserva uma ambivalência de amor/ódio em que a criança deseja a proteção do pai e ao mesmo tempo deseja a morte do pai. Neste caso, mesmo o ateísmo poderia ter alguma base no desejo. A rejeição de uma Autoridade Última poderia ter bases no desejo de que ninguém interferisse nas nossas vidas. Podemos observar também, como disse C.S. Lewis, que a existência em nós de um desejo que não pode ser saciado neste mundo indica a existência de uma Satisfação além mundo para esse desejo [5].      

COMPLEXO DE ÉDIPO E MORALIDADE

O freudianismo busca fornecer uma solução para o problema da moralidade no ateísmo. Se não existe Deus, como explicar a culpa que o homem sente por suas transgressões da lei? Nesse sentido, a psicanálise desenvolveu a ideia de um conflito universal chamado “Complexo de Édipo”.

Freud acreditava que existiram hordas primitivas nas quais o patriarca detinha sob o seu poder todas as mulheres da horda. Isso levou a uma revolta por parte dos filhos que mataram o pai. A morte do pai deu origem ao sentimento de culpa, pois os filhos alimentavam um sentimento ambivalente de ódio/amor pelo pai, visto que o patriarca também era fonte de proteção.

Ninguém teve coragem de substituir o lugar do Pai. O Pai foi substituído, então, por um símbolo religioso (totem) e foram instauradas duas leis: “Não matar o pai” (proibição do parricídio) e “Não tomar as mulheres da horda” (tabu do incesto). Essas duas proibições fundaram a civilização humana, de modo que essas leis estão presentes em todas as culturas: “A cultura totêmica baseia-se nas restrições que os filhos tiveram de impor-se mutuamente, a fim de conservar esse novo estado de coisas. Os preceitos do tabu constituíram o primeiro ‘direito’ ou ‘lei’.” [6]

Essa ocorrência fundante da cultura ocorre também em cada homem individualmente. Para Freud, a criança, desde o nascimento, experimenta vários prazeres sexuais. Primeiro ela se excita oralmente com o seio materno, depois com o prazer anal da defecação, até chegar a uma fase em que começa a teorizar sobre o pênis.

Toda criança acreditaria, a princípio, que o pênis é universal. Para o menino, tudo e todos possuem pênis, até que ele descobre que meninas não o possuem. Essa descoberta geraria uma angústia na criança que, imaginando que as meninas perderam seu pênis, teme perder o seu também. O menino teme ser castrado pelo pai e por isso passa a desejar que o pai morra para que ele possa ficar com a mãe.

A percepção e aceitação das diferenças sexuais anatômicas pela criança seria o que proporcionaria a formação de uma agência psíquica moral reguladora (superego) possibilitando que a criança se converta de um pequeno selvagem para um adulto civilizado. Civilizar-se, no entanto, exige o recalcamento dos desejos incestuosos pela mãe e do desejo da morte do pai, o que torna o homem civilizado um neurótico angustiado.

A consciência moral (superego), portanto, seria formada com a dissolução do complexo edípico. A agência de censura psíquica se construiria na infância a partir da relação com os pais:

“O longo período da infância, durante o qual o ser humano em crescimento vive na dependência dos pais, deixa atrás de si, como um precipitado, a formação, no ego, de um agente especial no qual se prolonga a influência parental. Ele recebeu o nome de superego. Na medida em que este superego se diferencia do ego ou se lhe opõe, constitui uma terceira força que o ego tem de levar em conta.” [7]

O Cristianismo, por outro lado, defende que todos já nascem com a lei gravada em seus corações. E, novamente aqui, a psicanálise freudiana está em oposição à antropologia cristã: “Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Romanos 2.15). 

Paulo está respondendo à pergunta: “Como os gentios poderiam ser culpados de negar o Deus verdadeiro e de quebrar a Lei, se Deus e sua Lei não foram revelados a eles como o foi a Israel?” Paulo responde isso dizendo que eles conhecem Deus e a Lei por meio da natureza, tanto externa, quanto interna. Portanto, eles são condenados com base na Lei objetiva de Deus gravada no coração humano. Paulo não tem em mente uma consciência subjetiva construída durante o desenvolvimento psíquico, ele tem em mente a consciência judiciosa que Deus implantou na natureza humana. 

Além disso, o pecado não pode ser reduzido a uma noção psicologista de “id”, nem a culpa deve ser entendida como um desprazer ocasionado pelo acúmulo de energias no aparelho psíquico. Biblicamente os pecadores são real e verdadeiramente culpados pelos seus pecados. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A psicanálise freudiana é uma teoria materialista, naturalista, determinista e reducionista, cujos pressupostos estão em evidente oposição à Cosmovisão cristã. A concepção de moral da Psicanálise, como baseada numa instância psíquica formada com a dissolução do complexo edípico, é oposta ao ensino bíblico de que Deus imprimiu a lei na natureza do homem. Sendo assim, a metapsicologia freudiana, assim como a ideologia marxista e o darwinismo cientificista, é uma teoria ateísta.

Fonte: Bereianos

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Recomeço

"Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?" - Romanos 7:24

Todos os dias, a todo momento essa teria que ser nossa "válvula de escape", o nosso "cair em si". Não me canso de meditar nesse versículo, principalmente nos últimos dias, as constantes vezes em que eu falho, com meus amigos, meus entes queridos, comigo mesmo e principalmente com meu Deus.

Mas não é tarefa fácil reconhecer nossas limitações e que estávamos no erro, é muito difícil, normalmente achamos "N" desculpas para embasar nosso ponto de vista e maquiar nossos pecados.

Creio na misericórdia do nosso Senhor e da sua fidelidade por meio da sua Graça, que por ação do Espírito Santo, não nós debatemos ainda mais.


Mas enfim Paulo em Romanos 7:24 reconheceu sua condição pecadora, e proferiu essas humildes palavras, que como disse deveriam ecoar em nossa mente cristão a todo momento. 

Vejo dezenas de pessoas se denominando radicais ou cheias do Espírito Santo, mas não como Paulo estava quando descreveu seu estado aqui na terra. É bem verdade que para quem está na luz, ou é realmente um cristão autêntico essas palavras soam como uma redundância, mas não devemos esquecer nunca de nossa condição.

"Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal." - 1 Timóteo 1:15

Minhas mãos tremem só de pensar e me entristeço do homem que me tornei, das falhas que já tive, entendo Paulo, ele era mau, era implacável, achava que fazia a vontade do Senhor, mas na verdade prestava um desserviço ao Reino.

Mas o Evangelho um dia cruzou seu caminho e ele simplesmente caiu do cavalo, e a verdade o cegou ao ponto dele ver as escamas caindo de seus olhos.

O objetivo desde texto é dizer a todos que leram e arderam seus corações ao ver o seu eu lá no fundo "agachado", tremendo de frio e com medo, nas profundezas do seu interior, e dar uma certeza: ainda não acabou!

"Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo;" - Filipenses 1:6

Creia que a obra que foi consumada na cruz irá te dar um Recomeço.

E a vida que jorra do trono do Altíssimo lhe conduz para a Glória. Lá sim você estará livre totalmente de você mesmo!

Fonte: Voz que Clama do Deserto

terça-feira, 16 de maio de 2017

Até onde estamos dispostos a ir para evangelizar pessoas?

É fascinante como o Senhor Jesus usou tantas situações informais como oportunidades de ensino. A leitura do evangelho de Lucas nos oferece algumas ideias reveladoras sobre como Jesus usou esse estilo de ensinamento ao viajar da Galileia para Jerusalém. Lucas contém todo tipo de histórias, perguntas e metáforas sobre como Jesus interagiu nas situações normais da vida. É um livro repleto de várias parábolas. Essencialmente, a maioria delas são sobre coisas do cotidiano sem conexão com as Escrituras (recebidas na época), com a igreja ou, de fato, com qualquer coisa remotamente religiosa em absoluto. Jesus usou-as para unir de modo sábio as verdades espirituais às pessoas dentro dos seus próprios contextos culturais.
Eu acredito que uma das razões pelas quais muitos cristãos têm dificuldades para comunicar de modo efetivo a verdade do evangelho às pessoas de segunda a sábado é que falam aos incrédulos como se fosse um domingo! Podemos ser desculpados por usar a linguagem “da igreja” em um domingo, mas não no restante da semana.
Eu acho que as parábolas de Lucas nos lembram que muitos de nossos relacionamentos com incrédulos não são construídos a partir do púlpito ou em sessões de ensino formal; são construídos, em geral, “no caminho” (por assim dizer). Em Niddrie, isso pode significar no carro no caminho para o farmacêutico para a sua “prescrição” (Metadona ou Valium, etc.), dando uma carona a alguém para a cidade, porque você o viu no ponto de ônibus, ou indo para o cabeleireiro local, para o centro de emprego, para o médico ou na loja da esquina. A maioria das melhores conversas que eu tive foram repentinas, encontros casuais na rua, e eu apenas decidi mudar minha programação. Espontaneidade flexível, é como nós o chamamos em Niddrie. É onde alguns dos membros da igreja mais focados em tarefas deslizam. Eles não desejam cancelar ou atrasar a reunião para a qual estão indo, não importa o motivo. Alguém pode pará-los na rua, mas eles perdem a oportunidade, porque estão a caminho de algum lugar. O problema é que nós todos estamos em nosso caminho a algum lugar! A chave para uma vida mais intencional é desenvolver um coração evangelístico “no caminho”.
Muitas pessoas cujas vidas são focadas em tarefas e dirigidas por suas agendas não gostam do caos e, assim, tentam desesperadamente impor ordem sobre ele. Muitos crentes aqui pensam que tenho algum dom secreto para fazer as pessoas quererem sair comigo no conjunto habitacional. Mas não tenho. Eu apenas busco as pessoas. Estou constantemente e intencionalmente alerta e sensível a todas e quaisquer oportunidades que aparecem. Eu tenho um interesse real nas pessoas. Eu saio com elas se falamos sobre Jesus ou não. Precisamos ser um povo cujo clamor da oração seja:
 Adentre em meu dia, Senhor, e me ajude a adentrar no de outra pessoa.
Muito do que leio sobre a vida comunitária e missional é referente a adequar as pessoas nas estruturas do nosso dia e nossas vidas. Isso funciona bem no “mundo ordenado”, mas na “cidade caótica” isso não dá certo. Na cidade caótica, a vida missional é informal, improvisada, uma tomada de decisão intuitiva que precisa lidar com o imediatismo da pessoa diante de você. Elas precisam de você AGORA, não uma semana na quinta-feira quando você tiver um tempo livre.
Deus nos ordena a entregarmos as nossas vidas a ele e ao seu serviço. A vontade de Deus para os discípulos foi enviá-los como ovelhas entre lobos. Então, por que tanto da conversa sobre missão e evangelismo se assemelha a um panfleto de saúde e segurança? Nós queremos fazer avaliações de risco bem antes de embarcarmos no serviço evangelístico! Ouço muita conversa como a das seguintes linhas:
Deus não desejaria que fizéssemos algo tolo ou muito dispendioso. Afinal, ele deseja que usemos o nosso senso comum. Devemos ser sábios no que fazemos. Não queremos ser reduzidos a cinzas. Que bem teríamos, então?
Não se preocupe, eu acho que muitos cristãos estão tão molhados que não acenderiam se fossem mergulhados em parafina e abaixados em um vulcão ativo! A Bíblia que li me diz que Deus não quer que sejamos reduzidos a cinzas. Ele quer que façamos mais do que isso! Deus quer que entreguemos as nossas vidas! Imagine como os destinatários originais da carta aos Hebreus se sentiram quando leram o capítulo 12, versículo 4. Eles haviam renunciado a muito pela fé: amigos, empregos e entes queridos e, no entanto, são lembrados: “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue”. Será que percebemos o que custa chamar alguém a ir a Cristo em um conjunto habitacional? As pressões são enormes. Como podemos chamar as pessoas a uma vida de autossacrifício e, ainda assim, prometer encontrá-las por uma hora, uma vez por semana, se não estivermos muito ocupados? O que estamos realmente dispostos a sacrificar pelo evangelho? Onde está a linha que não queremos cruzar em termos de serviço? Onde o nosso “sim, mas” entra nesse tipo de pensamento? Não devemos vender às pessoas um produto que nós mesmos não estamos comprando e usando.
Evangelismo no caminho significa aprender a ouvir bem, manter nossos olhos espirituais abertos a oportunidades instantâneas, ser espontaneamente flexível, andar com as pessoas em meio a mundanos e, muitas vezes, estar disposto a andar 10 quilômetros a mais pelo bem do evangelho do Senhor Jesus Cristo. Nós pedimos muito em Niddrie, mas em nada tanto quanto Deus requer daqueles dentre nós que prometeram renunciar a tudo para seguir o Senhor.


Por: Mez McConnell.
É pastor sênior da Niddrie Community Church, Edimburgo, Escócia. É fundador do 20schemes, um ministério voltado para plantação de igrejas nos lugares mais difíceis da Escócia. Desde 1999, McConnell tem se envolvido com o ministério pastoral, tanto em plantação quanto revitalização.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O indivíduo, a família e o evangelho

Muitos de nós crescemos com a percepção de que o evangelho é fácil e bonito. Escolhemos uma igreja e nela levamos nossas crianças, alimentamos rituais de passagem e fazemos celebrações familiares, envoltos em um “belo cenário”. O evangelho se torna um adendo, um cosmético para o nosso bem-estar. Porém, ele é algo bem diferente disto. Aliás, na edição anterior afirmamos que “é fácil, olhando para os Evangelhos, ver como Jesus é um causador de confusão”. Vimos a tensão vivida pela sua própria família quando ele perguntou de forma um pouco prepotente: “Quem é a minha mãe, e quem são meus irmãos?” (Mc 3.33)
 
Quem nunca ficou chocado com o modo relativo como Jesus parece tratar os vínculos familiares? Confesso ter dificuldade de entender quando ele diz que os inimigos serão os da própria casa e, também, que por causa do evangelho se criará cizânia familiar (Mt 10. 34-36). Quando ele chama os discípulos a segui-lo, pede fidelidade absoluta e coloca em segundo plano a importância da família (Lc 14.26). Dizemos que a intenção dessa palavra de Jesus é testar nossas prioridades. Contudo, seria mesmo necessário relativizar tanto os vínculos familiares? Ou haveria algum outro sentido nessa declaração?
 
Vejo três movimentos que precisamos discernir e abraçar no que se refere a essas palavras de Jesus. O primeiro nos desafia a olhar para dentro de nós, a reconhecer quem somos e a nos confrontar com os processos destrutivos que fermentam em nosso interior e poluem tudo a nossa volta: “Mas as coisas que saem da boca vêm do coração; são essas que tornam o homem impuro. Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfêmias” (Mt 15.18-19). Ao seguirmos Jesus, reconhecemos quem somos e, na busca por uma nova significação da vida, passamos por um processo de “lavagem interior”.
 
Contudo, como não somos indivíduos isolados da nossa história e contexto, este não é um processo individual. Somos, em grande parte, nossa história e nosso contexto. Criamos e impomos costumes e tradições que fazem parte da teia social que promove e também aprisiona a vida. Algo que foi constituído para facilitar e sustentar pode ser usado para escravizar, entristecer e empobrecer. Isso pode ser visto tanto nos milenares grupos étnicos e tribais quanto nas associações e aglomerados urbanos modernos. Jesus detecta e denuncia esses mecanismos. Ao acusar alguns de seus interlocutores de usar a tradição para deixar pai e mãe desprotegidos (Mt 15.3-6), ele se vale da relação familiar para demonstrar como isso acontece. Ao seguirmos Jesus, aprendemos a relativizar, não apenas nossos vínculos de pertencimento, mas também nossos usos e costumes. Por outro lado, ao segui-lo, experimentamos o sentido de resgate de nós mesmos, dos nossos vínculos e da nossa própria cultura. Por meio desse resgate, vemos aflorar o sentido tanto da família como do mandato cultural, com o qual fomos agraciados por Deus desde a criação.
 
O segundo movimento aponta, assim, para o resgate do sentido e da importância da família. O mesmo Jesus que em dado momento relativiza sua própria família, ao falar das tradições humanas, afirma o mandamento que aponta para o cuidado com os pais. E na hora de sua morte preocupa-se com a mãe e a entrega aos cuidados do discípulo João (Jo 19.27).
 
O evangelho não nos tira a família. Antes, acrescenta a ela uma família maior, que é a família da fé. Em conversa com os discípulos, Jesus aponta para essa realidade e lhes diz que serão recompensados com “irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos” (Mc 10.28-30). Assim, o evangelho nos abraça com a formação de uma comunidade que se nega a desenvolver tradições e costumes que encolham a vida, explorem o outro e se transformem em estruturas discriminatórias. O evangelho afirma opções de vida em que o interior é renovado e as prioridades são revistas, a família tem seu lugar restaurado e uma nova comunidade, com vocação de inclusão e de serviço em amor, emerge.
 
O terceiro movimento abraça o excluído, o solitário e o abandonado e resgata a dignidade da vida de cada um deles, como Jesus sempre fez. Aliás, foi para isso que ele apontou quando reagiu aos seus irmãos e à sua mãe, quando pretendiam buscá-lo e aprisioná-lo dentro de uma estrutura que ele queria relativizar e expandir. É preciso enxergar além da própria estrutura familiar; caso contrário, esta se torna egocêntrica, cansativa e maçante. É preciso ver que há um mundo lá fora que nos enriquece e desafia. Por isso Jesus diz que quem faz a vontade de Deus passa a ser sua família (Mc 3.35). E diz isso tanto para seus irmãos e sua mãe quanto para os que estavam ao seu redor. O segredo é fazer a vontade de Deus, e esta inclui honrar pai e mãe, cuidar dos filhos com amor, construir famílias integradas e belas e viver uma vida de amor e serviço. A verdade e a realidade disto são medidas, principalmente, a partir da maneira como se integra e se abraça o pequeno e o excluído. E disso nunca podemos nos esquecer.
 
Valdir Steuernagel • é teólogo sênior da Visão Mundial Internacional. Pastor luterano, é um dos coordenadores da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e um dos diretores da Aliança Evangélica Mundial e do Movimento de Lausanne.

domingo, 14 de maio de 2017

O valor incomparável de uma mãe

De todas as missões concedidas ao ser humano na história, nenhuma transcende à maternidade. O grande estadista americano, Abraham Lincoln, diz que as mãos que embalam o berço governam o mundo. Peter Marshall, capelão do senado americano, diz que as mães são as guardas das fontes, aquelas que promovem o bem mesmo permanecendo, tantas vezes, nas sombras do anonimato.
Ser mãe é gerar um outro ser dentro do seu próprio ser. É misturar sua vida com outra vida diferente, mas umbilicalmente jungida ao seu corpo, sua alma e seus sonhos. Ser mãe é doar-se incondicionalmente ao objeto do seu amor. É entregar-se sem reservas a quem nutre no ventre, no seio, nos braços. É correr risco para que o fruto do seu amor seja protegido e guardado do mal. Ser mãe é ser ensinadora, intercessora e protetora. Ser mãe é celebrar com os filhos as suas mais risonhas vitórias e chorar com eles as suas mais amargas tristezas. Ser mãe é ser um vaso de honra nas mãos de Deus para edificar uma família sólida, lançar os fundamentos de uma sociedade mais justa e construir os alicerces de uma grande nação.
A Bíblia faz referência a muitas mães que deixaram um abençoado legado a ser seguido. Joquebede não desistiu de Moisés, seu filho, mesmo estando ele sentenciado à morte antes de nascer. Deus a honrou e esse filho tirado das águas foi o libertador do seu povo. Ana orou e chorou por Samuel, seu filho, antes dele ser concebido e consagrou-o a Deus depois de nascido, para vir a ser o maior profeta, sacerdote e juiz de sua geração. Abigail lutou bravamente pela sua casa e livrou seus filhos de grande tragédia, conjugando firmeza e doçura, destreza e prudência. Rispa protegeu seus filhos mesmo depois de mortos e suportou, com bravura, o calor do dia e o frio da noite, até que eles recebessem um sepultamento digno. Eunice educou Timóteo nas Sagradas Escrituras, dando-lhe o leite da piedade desde sua mais tenra idade, e este jovem veio a ser um grande cooperador do apóstolo Paulo, o maior bandeirante do Cristianismo.
Aplaudimos com vívido entusiasmo as conquistas das mulheres em nosso tempo. Por muitos séculos elas tiveram seus direitos diminuídos ou mesmo sequestrados. Porém, nenhum sucesso da mulher compensa o seu fracasso como mãe. Nenhum posto é mais elevado para uma mulher do que o ministério de mãe. Nenhum trabalho é mais importante para a sociedade que o exercício pleno da maternidade. Mãe não é apenas aquela que gera, mas, sobretudo, aquela que nutre, ensina, educa e prepara para a vida.
A mãe cristã é aquela que intercede pelos filhos com fervor, acompanha-os com amor, orienta-os com sabedoria e disciplina-os com firmeza. É aquela que se coloca na brecha em favor dos filhos e não abre mão de vê-los aos pés do Senhor. Chora por eles, jejua por eles, não desiste deles até vê-los salvos e levantados como colunas do santuário de Deus, usados como vasos de honra nas mãos do Senhor.
Mais do que de bens materiais, de sucesso profissional, de conquistas de títulos e honras deste mundo, as famílias precisam de mães que não abram mão de sua trincheira, a trincheira da oração pelos filhos. Quando as mães se prostram diante de Deus em oração, os filhos são levantados por Deus diante do mundo. Quando as mães se tornam reparadoras de brechas, os filhos são levantados como instrumentos de transformação da sociedade. Oh, que as mães sejam sempre mestras do bem, guerreiras de oração, missionárias incansáveis dentro de sua família, a fim de que tempos de refrigério venham da parte do Senhor sobre a igreja, trazendo-nos um poderoso reavivamento espiritual!

Fonte: Hernandes Dias Lopes

sábado, 13 de maio de 2017

O que acontece quando as mulheres mergulham nas Escrituras

Ops, é maio, e temos mais um dia para escrever neste mês. Muitos temas me passaram pela cabeça, mas, enquanto eu freneticamente pensava e pesquisava, novas ideias foram surgindo, e pensei que seria bom falar de livros que podem nos fazer crescer no estudo da Palavra de Deus.
Já falamos aqui sobre algumas disciplinas espirituais que devemos perseguir para o aperfeiçoamento de nossa vida cristã: iniciamos com leitura bíblica anual, falamos de meditação e discipulado de mulheres.
A porta estreita (Lc13.24) sempre me faz pensar em dietas radicais para ficar na forma “slim” e conseguir atravessar para o outro lado. O que também me faz lembrar que o reino de Deus é conquistado por esforço (Lc16.16), o que ainda me faz refletir na necessidade de sermos diligentes e abandonarmos a preguiça (Pv13.4).
Ovelha, espreguiça, deixa essa moleza de lado, e vamos a mais um exercício espiritual.

Aprofundando nosso conhecimento na Palavra

Mais do que apenas a leitura bíblica anual, e apenas não é dito de forma pejorativa no sentido de diminuir a importância desta disciplina, há a necessidade da leitura vertical, aquela por meio da qual nos aprofundamos no conhecimento das Escrituras.
Ler as Escrituras em profundidade, escavando em busca de pepitas, exige um pouco mais de habilidade do que a leitura horizontal, extensiva. Por isso, alguns auxílios são bem-vindos. Nem pense em parar de ler por aqui! Ore, respire fundo e siga!

Ferramentas básicas para garimpar a palavra

Bíblia de Estudo

O mais importante é ter uma boa bíblia, se esta pudesse ser de estudo, seria ótimo, pois ela já vai fornecer muitas ferramentas de auxílio, geralmente um panorama introdutório de cada livro, notas de rodapé, referências cruzadas, concordância e mapas.

Comentário Bíblico

Eu gosto bastante de usar o comentário versículo a versículo. Estes livros são bastante úteis para aqueles trechos que não conseguimos entender sozinhas. Mas use-o somente após ter meditado e pedido auxílio em oração ao Espírito Santo.

Dicionário Bíblico

Fornece os termos bíblicos referentes à época; é bom para nos informar sobre nomes e lugares, aspectos da história, cenários e doutrinas.

Alguns cuidados para o estudo

Leia a palavra em oração, tenha um local silencioso e privado, faça perguntas ao texto, tenha um caderno de anotações para as suas dúvidas e descobertas. Pense no texto literalmente.

Efeitos de mergulhar nas Escrituras

Olhe só, vou te animar citando alguns versículos que amo muito, amo tanto que os memorizei e saio por aí citando-os em voz alta, meditando, mastigando cada palavrinha, porém, mais do que isso, me deleito no que provocam em meus afetos, algo parecido com degustar brownies com sorvete de creme e calda quente de chocolate (agora você entendeu, não é?).

Saturadas pela palavra, falando a verdade e louvando

Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo, instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos e cânticos espirituais, com gratidão em vosso coração. Colossenses 3.16
Vamos juntas conhecer os efeitos que esta prática nos revela nesses versículos: quando a palavra de Cristo habita em nós, podemos, com toda segurança, instruir e aconselhar umas às outras, pois a nossa boca falará do que está cheio o nosso coração (Lc 6.45), e teremos certeza de que o nosso coração estará ricamente habitado por Cristo, o verbo encarnado (Jo 1.14). Perceba que temos a palavra TODA junto à palavra SABEDORIA. Toda sabedoria significa ser necessário vasculhar toda a Bíblia para conhecermos Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos (cf. Colossenses 2.3). Ainda nesse verso, vemos que estar saturada de Cristo provoca em nós louvores, e agora a nossa boca, sem poder calar-se, canta, e a gratidão espontaneamente brota em nós. Aleluia!

Perfeitas e perfeitamente habilitadas

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. 2Timóteo 3.16-17
Perceba que Paulo fala de toda a escritura, isto inclui as partes que apreciamos menos também, porque as escrituras se testificam a si mesmas. Além disso, o mesmo Espírito que inspirou homens santos a escreverem inspira nossa mente ao entendimento. Ela é útil para a vida moral prática: ensino, repreensão, correção, educação, capacitando-nos a sermos melhores em nossos relacionamentos. Estes versos prometem perfeição, aquela que por nós mesmas não podemos alcançar, no entanto, aqui há uma promessa. Lembro-me de quando esses versículos fizeram sentido para mim, eu orava por capacitação em alguma área do meu trabalho e, quando li que a Palavra de Deus me habilitaria para TODA boa obra, isso foi libertador, um bálsamo, desde então me agarrei a esses versículos.

Relacionamento de amor

Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. Hebreus 4.12
Além de tudo isso que já foi escrito, eu ainda poderia citar muitas outras benesses que não caberiam neste pequeno texto, no entanto, guarde no seu coração que um dos mais preciosos momentos em que podemos conhecer intensamente o nosso Senhor é quando, a sós com a nossa Bíblia, nos embrenhamos Palavra a dentro. É nesse momento que o nosso amado Senhor fala pessoalmente conosco. Veja, é uma relação pessoal, criada através do sangue de Cristo derramado por amor de cada uma de nós, amor que é o vínculo da perfeição (Cl 3.14). Devemos nos regozijar na graça de termos um momento em particular com o Senhor da vida; é nesse tempo que o seu Espírito alcança o nosso espírito escondido naqueles lugares, entre juntas e medulas, no mais íntimo de nós, onde somente ele pode penetrar cada dobra de nossos pensamentos, sondar, de fato, os escombros de nossos corações e iluminar, sarar, vivificar.

Devora-o!

Fui, pois, ao anjo, dizendo-lhe que me desse o livrinho. Ele, então, me falou: Toma-o e devora-o; certamente, ele será amargo no teu estômago, mas, na rua boca, doce como mel. Apocalipse 10.9
Ainda está aí? Avante, Ovelha!331
Ao Senhor, toda a honra e majestade, hoje e sempre.

Versículos citados no texto

Ovelha, os versículos citados acima estão aqui transcritos para facilitar a sua leitura, por favor, leia-os, porque é a palavra de Deus que nos transforma.
Lucas 13.24
Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão.
Lucas 16.16
A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele.
Provérbios 13.4
O preguiçoso deseja e nada tem, mas a alma dos diligentes se farta.
Lucas 3.45
O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração.
João 1.14
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.
Colossenses 3.14
Acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição.

Para as Ovelhas curiosas, dicas de livros:

Mulheres da Palavra, de Jen Wilkin, Editora Fiel

Livro muito bem organizado por Jen, que é professora de estudos bíblicos. É possível lê-lo em uma semana e sair praticando.

Vivendo na Palavra, de Howard e William Hendricks, Editora Batista Regular

É mais profundo e abrangente que o livro anteriormente citado, e, por ser mais minucioso, exigirá mais dedicação e mais tempo para leitura e aplicação. Está dividido em 3 grandes partes: observação, interpretação e aplicação. Excelente livro.


Por: Renata Gandolfo. © Voltemos ao Evangelho.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Grande Comissão: cumprida por igrejas e para igrejas


A Grande Comissão de Cristo em Mateus 28.16-20 é mais comumente associada a um apelo para que os cristãos individualmente considerem seu chamado para irem ao mundo como missionários. Embora certamente seja um texto que todo seguidor de Cristo deveria meditar e aplicar, parece que uma aplicação primariamente individualista desse mandamento é mais um produto da nossa cultura ocidental do que uma leitura natural do texto.

O mandamento de Cristo foi dado à igreja.

De acordo com o versículo 16, os onze discípulos foram os ouvintes originais do mandamento. Os apóstolos eram mais do que indivíduos que procuravam obedecer de modo privado aos ensinamentos de Cristo. Aqueles homens eram fundadores e líderes da igreja que seria estabelecida e multiplicada por meio do seu testemunho e do poder do Espírito Santo. Foi entendido que cada membro da igreja seria ensinado a obedecer a tudo o que o Senhor ordenou, incluindo o mandamento de fazer discípulos de todas as nações.

O mandamento de Cristo foi dado a todos os membros da igreja.

É um gracejo comum que Domingos de missões são reservados para semanas quando a frequência do culto é pequena. Ao que parece, a suposição é que as mensagens sobre as nações são particularmente para um subgrupo da congregação: homens e mulheres que já estão predispostos a pensar ou interagir com estrangeiros. Isso faria sentido se (a) uma simpatia pelos povos e culturas fosse a principal motivação para alcançar as nações com o evangelho; e (b) o único meio de obediência ao mandamento de Cristo fosse realmente sair de casa e viver em outro lugar por amor ao evangelho.
No entanto, nenhuma dessas opções é verdadeira. A motivação final para proclamar o evangelho e fazer discípulos não está enraizada na sociologia. É o imensurável valor e glória de Cristo que nos compele a espalhar a mensagem do evangelho. Quando qualquer coisa sobre o nosso Deus maravilhoso move nossas afeições para a adoração e obediência, um transbordamento natural será um desejo de ver outros que ainda não o conhecem serem movidos a adorar.
Além disso, a aplicação da Grande Comissão não é unicamente para ir, mas para orar ao Senhor da seara por mais trabalhadores (Lucas 10.2), para enviá-los como a igreja de Antioquia fez com Barnabé e Paulo (Atos 13.2-3), e para apoiar os missionários como cooperadores da verdade (3 João 8). Trata-se de um esforço corporativo que envolve cada membro do corpo de Cristo. Assim, nosso objetivo não é persuadir todos a se tornarem missionários, mas ajudar todos em nossas congregações a pensarem e agirem com uma mentalidade de evangelização mundial.
O mandamento de Cristo foi dado a todas as igrejas.
A missão de ir e fazer discípulos de todas as nações foi dada às igrejas de todas as nações. O evangelho continua a se espalhar pelo mundo, e à medida que as igrejas têm se multiplicado e amadurecido, elas também têm se envolvido no envio e apoio de missionários. A realidade é que as igrejas em todo o mundo estão profundamente empenhadas em missões internacionais; essa não é uma iniciativa exclusivamente ocidental.
Há duas armadilhas potenciais para líderes de igrejas ocidentais à luz disso. Por um lado, podemos cair na armadilha de crer: “Se NÓS não formos, como eles ouvirão?”. A missão de propagar o evangelho a toda língua, tribo e nação pode ser vista como uma tarefa unicamente para as igrejas na América, sem considerarmos os nossos irmãos e irmãs ao redor do mundo que estão trabalhando ao nosso lado. O outro perigo é acreditar: “Há tantos outros indo, então não somos mais necessários”. Sim, países como a Coréia do Sul e a Índia estão enviando dezenas de milhares de missionários, mas isso não significa que podemos abdicar de nossa responsabilidade.
Alguns anos atrás, enquanto estava na América do Sul, pedi a um respeitado missiólogo brasileiro e plantador de igrejas sua opinião a respeito da afirmação de que a era das missões ocidentais tinha terminado e que agora era o momento de passar o bastão. A sua resposta foi graciosa e sincera: Já ouvi isso antes, ele disse, e a minha pergunta é:Por que você acha que o bastão era seu a princípio?’”. Ele tem razão. A Grande Comissão não pertence a nenhuma era ou região específica da igreja; em vez disso, todas as igrejas em todas as eras e em todos os lugares devem se esforçar juntas para fazer discípulos de todas as nações. Nossa oportunidade à luz dessas tendências mundiais não é apenas enviar a partir de nossas congregações, mas também fazer parcerias com igrejas estrangeiras para enviar, apoiar e servir missionários entre as nações.

A ordem de Cristo era fazer discípulos, que se tornariam igrejas.

O objetivo das missões não é evangelizar todos os povos, mas fazer discípulos que observem tudo o que Cristo ordenou. O primeiro pode ser realizado rapidamente através de indivíduos, enquanto o último leva tempo e necessita da comunidade. Portanto, cumprir a Grande Comissão requer a plantação de igrejas.
Qualquer esforço em missões deve estar ligado ao objetivo de gerar corpos locais de crentes através da declaração e demonstração do evangelho. Os ministérios de misericórdia são bons e saudáveis, mas permanecerão atrofiados se os corações de pedra não forem feitos de carne através do poder do Espírito de Deus pela Palavra de Deus. Por outro lado, o ministério da proclamação é necessário, mas intangível, sem a aplicação da Palavra em serviço às necessidades sentidas pela comunidade. O objetivo, então, é ver surgir comunidades de discípulos que proclamam as boas novas da salvação em Jesus Cristo e exibem o fruto do Espírito através do seu amor ao próximo.
Se é o papel de cada igreja local obedecer à Grande Comissão para o nascimento de novas igrejas locais a nível local e global, por onde começamos? Sugiro que comecemos no mesmo ponto em que os discípulos de Cristo. Como líderes da igreja, devemos considerar os mandamentos do Senhor e devemos buscar a direção e o poder do Espírito Santo à medida que avançamos na fé. Não importa o tamanho, a idade, os recursos ou os desafios de nossa igreja, não estamos incapazes, pobres ou sozinhos. A promessa de Cristo é para nós hoje. Ele governa todas as coisas, terrenas e celestiais, e está conosco até o fim dos tempos. Ele completará a sua missão.


Por: Ryan King. © 9Marks. Website: 9marks.org. Traduzido com permissão. Fonte: The Great Commission: Fulfilled by Churches and for Churches.

Você poderá gostar também de:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...